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riscos_e_rabiscos

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O Homem Sem Rosto

 

Andava eu no 6º ano (na altura o 2º ano do 2º ciclo), quando o vi pela primeira vez. Era uma coisa medonha, assustadora, principalmente para uma miúda ingénua e inocente, só ciente de certas deformidades em histórias como n’O Corcunda de Notre Dame.

Lembro-me de o ver, grande parte da minha e da sua vida, naquele cruzamento, a dar orientação ao trânsito como forma de distrair as horas do dia. Havia quem passa-se e o cumprimentasse porque o conhecia de o encontrar ali anos e anos a fio, e havia outros que o ofendiam, chamando nomes obscenos e ofensivos. Como se ele tivesse escolhido ter aquela deformidade facial, como se tivesse sido opção sua não conhecer o seu próprio rosto.

 

E havia os “espertinhos”, aqueles que o usavam para assustar as pessoas. Andava eu no 12º ano noutra escola, que na altura era à noite, e os tais espertinhos incentivavam o pobre homem a assustar as miúdas, principalmente, quando saiam da escola. Na altura, a zona escolar não era muito iluminada e propiciava-se a este tipo de susto. Eu não tinha medo e também não me assustava porque o conhecia. Sentia pena porque a conformidade acompanhava o passar dos anos.

A última vez que o vi, fiquei com o coração apertado ao ver que quase já não via e que deveria ser muito difícil comer, estando, por isso, muito magro.

 

Hoje voltei a vê-lo na SIC. Foi com contentamento que fiquei a saber que esteve nos EUA para lhe retirarem o tumor que lhe desfigurava o rosto e que ninguém em Portugal arriscou operar. Nem quando estava numa fase mais inicial.

 

Espero que tudo lhe corra pelo melhor e que se consiga reconhecer no seu novo rosto.

 

A notícia está aqui.